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Gilvan Moreira analisa os assuntos que movimentam o futebol e o handebol, com atenção especial ao esporte de base, à formação humana e aos bastidores da competição.

Gilvan MoreiraProfessor • Psicólogo do Esporte • Jornalista
Gilvan Moreira, colunista da PlayGol TV
COLUNISTA PLAYGOL TV

O ingresso abre a catraca; o projeto precisa abrir caminho

O Sport levou a sexta edição do Torcedor Nota 10 a João Alfredo e receberá estudantes da rede pública na Ilha do Retiro. A experiência pode ampliar pertencimento e acesso — desde que a nota não vire filtro excludente e a visita deixe continuidade depois do jogo.

Alejandro tem 13 anos, cursa o 6º ano e nunca entrou num estádio. Em 14 de novembro, essa frase pode deixar de ser verdadeira. Ele está entre os estudantes de João Alfredo convidados a assistir a Sport x Goiás, na Ilha do Retiro, por meio do Torcedor Nota 10.

A sexta edição do programa foi lançada nesta quarta-feira, 28 de outubro, no Ginásio Poliesportivo Djair Santos, no Agreste pernambucano. O encontro reuniu cerca de duas mil pessoas e levou os atletas Arthur Maron e Adriano para conversar com alunos da rede pública. Pela primeira vez, a iniciativa saiu da Região Metropolitana e chegou ao interior do estado.

Há valor evidente nessa cena. Para uma criança que nunca teve acesso ao estádio, a experiência não é apenas ocupar um assento durante noventa minutos. É descobrir um espaço coletivo que parecia pertencer aos outros, reconhecer-se na paisagem esportiva do próprio estado e construir uma memória que pode continuar muito depois do placar.

Mas projetos que aproximam escola e futebol ficam mais fortes quando aceitam uma pergunta incômoda: quem consegue atravessar a catraca e o que acontece depois? Se o acesso depender apenas das notas mais altas, a iniciativa corre o risco de premiar quem já encontrou melhores condições para aprender e deixar de fora justamente quem mais precisa de vínculo, incentivo e oportunidade. O ingresso abre a entrada do estádio. O projeto precisa abrir caminhos para além dele.

A primeira vez também educa

A ida ao estádio pode reunir aprendizagens que a sala de aula não reproduz sozinha. O estudante organiza horário, deslocamento e convivência; observa regras, funções profissionais e manifestações culturais; percebe como milhares de pessoas compartilham o mesmo espaço sem viver a partida da mesma maneira. A experiência oferece material para conversar sobre pertencimento, respeito, comunicação, cidade e responsabilidade coletiva.

O jogo também aproxima gerações. No Cabo de Santo Agostinho, uma edição anterior reservou vagas para estudantes e responsáveis, incluindo alunos atípicos acompanhados por familiares. Em Igarassu, jovens de 14 anos relataram ao Diario de Pernambuco a emoção de conhecer a Ilha do Retiro durante a vitória sobre o Criciúma. Quando escola, família e clube constroem a visita juntos, o futebol deixa de ser apenas consumo e vira experiência social compartilhada.

Essa potência não deve ser diminuída com a frase de que é só um passeio. Para quem cresceu vendo o estádio pela televisão, estar ali pode reorganizar a ideia de quem tem direito à cidade e aos seus símbolos. A emoção é legítima. A responsabilidade dos adultos é transformá-la em oportunidade educativa, sem exigir que toda criança saia dali torcedora, atleta ou exemplo de superação.

Boa nota não pode ser o único passaporte

O Sport apresenta o Torcedor Nota 10 como incentivo ao bom desempenho escolar. Em lançamentos anteriores, o clube informou que a participação seria destinada aos estudantes com as melhores notas. O critério é fácil de comunicar e parece justo porque liga esforço a reconhecimento. O problema é tratar o boletim como se ele medisse sozinho mérito, compromisso e potencial.

Duas crianças podem alcançar resultados diferentes apesar de se esforçarem de maneira semelhante. Uma tem internet estável, local silencioso, transporte regular e adulto disponível para ajudar. Outra divide o quarto, cuida de irmãos, falta porque o ônibus não chegou ou tenta aprender enquanto enfrenta uma dificuldade ainda não identificada. A nota registra parte do processo; não conta todas as condições em que ele aconteceu.

Se o estádio vira prêmio exclusivo para os primeiros da turma, o projeto pode repetir desigualdades que pretende combater. Há alternativas mais pedagógicas: reconhecer evolução, frequência, participação, cooperação, compromisso com atividades e superação de uma dificuldade específica. A escola conhece a história de seus alunos e pode combinar critérios para que excelência e inclusão não sejam apresentadas como adversárias.

Premiar desempenho não é errado. Errado seria confundir desempenho com valor pessoal e oportunidade com troféu reservado a poucos. O estudante que ainda não conseguiu uma nota alta talvez seja exatamente aquele para quem uma experiência de pertencimento produzirá novo sentido para permanecer na escola.

Incluir é preparar o caminho inteiro

A entrada gratuita resolve uma barreira importante, mas não todas. O acesso depende de transporte, alimentação, segurança, autorização familiar e informação compreensível. Nas edições apresentadas pelo clube, prefeituras e poder público assumem a logística dos ônibus. Essa cooperação é central: um convite que não garante deslocamento continua inacessível para muitas famílias.

Também é necessário planejar a experiência de estudantes com deficiência, neurodivergentes ou que precisem de apoio adicional. Lotação, ruído, filas e mudanças de rotina podem transformar entusiasmo em sobrecarga. A presença de alunos atípicos e seus responsáveis numa edição anterior mostra que a inclusão já aparece no desenho do programa. O passo seguinte é tornar acessibilidade um padrão declarado, e não uma solução organizada caso a caso.

A Carta Internacional da Unesco para a Educação Física, a Atividade Física e o Esporte afirma o acesso a essas práticas como direito fundamental e recomenda programas inclusivos, seguros e sistematicamente avaliados. O princípio ajuda a mudar a pergunta. Em vez de decidir quem mereceu o futebol, escola e clube podem perguntar o que precisam remover para que mais estudantes consigam vivê-lo com dignidade.

O clube ganha torcida; a comunidade precisa ganhar continuidade

O Sport não esconde que o programa também busca formar novos torcedores e interiorizar a marca. Não há contradição automática entre interesse institucional e valor social. Um clube vive de vínculo, memória e renovação de sua torcida. Ao abrir a Ilha para estudantes, cria relações que podem acompanhá-lo por décadas. A honestidade exige apenas que a ação não seja apresentada como benefício de mão única.

A comunidade oferece ao clube atenção, afeto e presença. Em troca, precisa receber algo que permaneça além da fotografia do lançamento. Pode ser uma agenda continuada de visitas, materiais pedagógicos, clínicas esportivas, encontros com diferentes profissionais do futebol, apoio a práticas locais ou canais para que os próprios estudantes avaliem a experiência. A camisa pode chegar à escola; o investimento educativo também precisa chegar.

Interiorizar uma marca é mais do que levar o escudo até uma cidade. É reconhecer as identidades esportivas que já existem ali, dialogar com clubes, professores, projetos e modalidades locais. O estudante de João Alfredo não é uma folha em branco à espera de um time da capital. Ele já traz referências, afetos e histórias. Um programa respeitoso amplia esse repertório sem pedir que a cultura local desapareça.

Antes, durante e depois do jogo

Uma visita educativa começa antes da partida. A escola pode trabalhar a história do campeonato, a geografia do deslocamento, o orçamento de um evento, a linguagem da narração, as estatísticas ou a arquitetura do estádio. Pode discutir rivalidade sem violência, racismo, respeito às mulheres e cuidado com o espaço comum. Assim, o jogo não chega como recompensa isolada, mas como parte de um percurso de aprendizagem.

Durante a experiência, orientação clara e adultos preparados ajudam a transformar estímulo em participação segura. Depois, a conversa precisa voltar à escola. O que o aluno observou? O que o surpreendeu? Que profissões encontrou? Como se sentiu naquele espaço? Que comportamentos da torcida merecem ser repetidos ou questionados? A reflexão posterior impede que a lembrança se reduza ao resultado do placar.

O próprio programa pode medir mais do que público e ingressos distribuídos. Quantos participantes nunca tinham ido a um estádio? Quem ficou de fora e por quê? Houve estudantes com deficiência? A experiência aumentou interesse por atividades escolares ou esportivas? Famílias se sentiram acolhidas? As respostas ajudam a corrigir o projeto e demonstram impacto sem depender apenas de depoimentos emocionados no dia do evento.

O futebol pode reconhecer quem ainda está tentando

O nome Torcedor Nota 10 tem força de comunicação, mas a educação não deveria exigir perfeição para oferecer pertencimento. Há crianças com notas altas que merecem ser celebradas. Há outras em recuperação, enfrentando faltas, insegurança ou dificuldade de aprendizagem, que também precisam ser vistas. Um projeto realmente educativo consegue reconhecer as duas trajetórias.

O Ministério do Esporte descreve o Programa Segundo Tempo, política de acesso ao esporte educacional, como instrumento de desenvolvimento integral, cidadania e inclusão, com prioridade para áreas de vulnerabilidade. A lógica é útil mesmo fora dessa política específica: o esporte público ou social alcança sua melhor função quando amplia direitos, não quando seleciona apenas quem já conseguiu responder melhor às exigências existentes.

Isso não significa abandonar critérios. Significa escolher critérios coerentes com o objetivo. Se a meta é incentivar estudo, pode-se valorizar progresso. Se é reduzir evasão, frequência e permanência importam. Se é fortalecer convivência, cooperação conta. Se é incluir, parte das vagas deve alcançar quem enfrenta mais barreiras. O desenho do acesso ensina tanto quanto o discurso feito no palco.

Alejandro poderá entrar na Ilha do Retiro e voltar para João Alfredo com uma história que antes não tinha. Esse já é um resultado importante. O desafio é garantir que ele e os outros estudantes não sejam apenas plateia de uma ação bem divulgada, mas participantes de um processo que escuta, inclui e continua. O ingresso abre a catraca por uma tarde. O projeto só cumpre toda a sua promessa quando abre caminhos que permanecem no dia seguinte.
Gilvan Moreira
Gilvan Moreira

Professor de Educação Física, psicólogo do esporte, jornalista e mestre em Ciências do Esporte. Escreve sobre desempenho, formação esportiva e as histórias que começam antes do apito.

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